Relato da atleta Angela Rosso de Cascavel.

Olá, galera, acabamos de receber o relato da atleta Angela Rosso, estou  aqui com os olhos marejados de água após ler as lindas palavras que contaram a trajetória dela, que contaram toda a  mudança que a corrida trouxe para a vida dessa guerreira.

Parabéns, Com certeza mais um relato que irá incentivar e animar muitas pessoas.

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Comecei a correr em outubro de 2012 em um momento em que eu precisava descobrir algo que me completasse, em um momento em que eu precisava provar para mim mesma que eu poderia realizar algo em minha vida.

 Em janeiro de 2012, após cirurgias de reconstrução do tendão patelar e realinhamento do osso da canela nos dois joelhos (com implantes de platina) eu tentei vários tipos de esporte, até nadar, mas não conseguia me adaptar a nada então resolvi que ia começar a correr. Sempre amei toda forma de esporte e praticava vôlei e handebol até que meus joelhos me fizeram desistir. Depois de muita fisioterapia e reforço muscular estabeleci a meta de correr 4 km, a volta no lago municipal de Cascavel sem sentir dor. Pretendia cumprir essa meta até dezembro de 2012. Me dediquei para isso, corria um pouco durante a semana na esteira e sempre que tinha um tempinho pelo menos 3 vezes na semana eu corria um pouquinho no lago, intercalava corrida e caminhada, não tinha resistência para nada. Em outubro de 2012 consegui a façanha de fazer a primeira volta no lago, levei quase 10 meses para conseguir correr 4km. Quando terminei a volta, eu sentei e chorei, chorei de alegria, de uma emoção que não tinha fim, chorei por todos os sonhos que até então eu não tinha conseguido concretizar, por todos os objetivos estabelecidos e não atingidos e por todas as metas abandonadas ao longo da vida, foi o primeiro sinal que eu poderia conseguir sim, bastava que eu quisesse, só dependeria de mim e de uma boa dose de compreensão dos meus.

A distância de minha corridas foi aumentando, a nova meta eram os 10 km, almejava os 10km e somente eles. Se eu corresse os 10km pararia neles, porque já era demais para mim, era muito, muito além de qualquer devaneio que eu tivera na longa batalha com meus joelhos, eu que por algum tempo só desejei poder caminha sem dor correndo 10 km, era a realização maior. Entretanto fui evoluindo muito rapidamente, se em outubro eu sofrera para completar os 4km no final de novembro eu corri pela primeira vez os 10, e aquilo era o auge de tudo o que eu esperava. Cheguei a ficar doente, a imunidade caiu, tive um super resfriado. Contei para todos que eu completara os 10 km. Mas os 10 km não bastaram. Ao invés de me contentar com o feito, cada vez eu aumentava um pouquinho mais a distância, em dezembro consegui 3 voltas no lago (12 km).

Muita coisa estava ruim em minha vida, eu estava desesperançada, estudando há muitos anos sem conseguir aprovação dentro do número de convocados em vários concursos prestados, a vida pessoal uma bagunça, o trabalho era pura obrigação, meu filhote sempre adoentado, a corrida se transformou então em uma fuga da realidade, era o tempo que eu tirava para colocar os pensamentos em dia, era o pouco de tempo que eu conseguia tirar para mim, eu corria por mim e por mais ninguém. Não importava se eu havia dormido duas horas à noite, às 6 da manhã eu estava na academia reforçando a musculatura ou no lago correndo. 

Foi então que a Fabíola me convidou para correr a meia maratona, e eu pensei: “caramba, serão 21 km, eu nunca vou conseguir”, mesmo assim fiz minha inscrição em janeiro e procurei uma planilha na Internet para treinar, sozinha, sem um roteiro a seguir eu acredito que não teria conseguido. Utilizei a planilha para iniciantes da Runners, seriam 16 semanas para concluí-la e eu tinha 20 semanas disponíveis, pela planilha seriam 4 treinos por semana, mas eu dispunha de tempo para fazer apenas 3, dois na esteira e um longão no final de semana na rua. Segui rigidamente a planilha, não pulei nenhum treino e nos outros dias da semana fazia musculação. Esperei até o começo de abril para reservar o hotel porque mesmo tendo corrido 18 km eu não acreditava que conseguiria fazer os 21 km (santa insegurança!!!) a planilha previa 2 treinos de 21 km, e eu os fiz. Com quatro semanas de antecedência eu conclui a planilha. Nas últimas semanas antes da meia modifiquei meu treino muscular para um treino de resistência, refiz as últimas semanas da planilha correndo algumas subidas e a ansiedade só aumentando.

Enfim chegou o dia da meia maratona das Cataratas, antes da largada a ansiedade de pensar qual era o percurso. Me concentrei e tentei não forçar demais nos primeiros km. Primeiro km vencido com 6min45seg, alto, mas dentro do planejado para alguém que tinha como meta correr os 21km em 2h20min. No segundo km já me sentindo dentro da prova e à vontade o tempo baixou para 6min15seg, resolvi parar de controlar o cronômetro e só correr, aproveitar que eu estava me sentindo bem. Os 9 primeiros km foram fáceis, a subida do hotel das Cataratas que fez muita gente caminhar não me afetou, foi fácil, tranquila até. Cheguei ao 15 km com 1h30min, estava bem, tinha muita perna ainda cheguei a achar que conseguira fazer a prova muito próximo das 2h00.

Então o psicológico apareceu e na descida do km 19 não consegui mais soltar, senti uma fisgada forte na panturrilha direita, acredito que resultado do tipo do percurso que não tem nada de plano, mesmo que suaves são muitas subidas e descidas, e eu perdi o foco e comecei a sofrer. Juntei todas as forças que tinha, coloquei o coração no tênis e brigando comigo mesmo eu disse: agora você vai terminar isso aqui. Foram 20 semanas de treino, você vai terminar, pela sua família, por todos os que acreditaram em você. Eu sabia que se eu parasse naquele momento carregaria comigo mais uma decepção por mais uma coisa começada e não concluída. E eram só 2 km eu que já correra quase 600 km na preparação não poderia desistir. Soltei um grito com todos os pulmões e continuei em frente. Com o km 20 superado surge aquele paredão da última subida pela frente, as pernas doíam muito, a minha postura comprometida, eu tentei caminhar, mas não consegui, as panturrilhas pareciam gelatina de tanto que tremiam e o jeito era continuar a correr. Nesse momento atrás de mim alguém percebeu meu cansaço e começou a conversar comigo, eu não sei quem era eu sequer olhei para trás, eu não conseguia, essa pessoa foi conversando comigo, dizendo que eu era guerreira e que não poderia desistir, que faltava muito pouco. Superei a subida, pisei no tapete vermelho, vi o Sidclei e ele me incentivou. Cruzei a linha de chegada, o último passo caminhando de forma cambaleante. Vi meu esposo, ele que sempre acreditou que eu era capaz, que sempre me apoiou estava ali me esperando desde às 07:00 da manhã, eu só olhei pra ele e com lágrimas nos olhos e um sorriso no rosto eu balbuciei: “eu consegui”. Não havia mais nada a ser dito, não precisava dizer nada mais. Enfim, tempo de prova 2horas 10 minutos e 33 segundos, 10 minutos a menos do que eu havia planejado, posição 45 de 87 da categoria e 278 do geral feminino. Nesse momento encontrei o César, a Fabíola, minha grande incentivadora e ao lado de quem percorri os primeiros 14km da meia. Curti o meu momento, muitas fotos, a medalha linda. Toda a dor, o cansaço, tudo, nada importava. Superar aqueles 21 km mudou a minha vida. Até agora fico olhando as fotos e quase não acredito, estou muito orgulhosa de mim, pela primeira vez na vida possivelmente.

A corrida mudou e tem mudado a minha vida, finalmente depois de mais de 30 anos de existência encontrei algo que amo profundamente fazer. Não temo afirmar que tudo ficou melhor desde que comecei a correr. Consegui provar para mim mesma que eu posso conquistar o que eu quiser, basta que tenha isso como meta, que dedique o tempo que eu conseguir dispor, eu posso sim começar e terminar meus projetos.

E que venham novas meias maratonas e quem sabe um dia uma maratona. Enquanto correr me fizer sentir essa emoção a cada treino concluído com êxito, enquanto a corrida conseguir encher meus olhos de lágrimas e o coração de alegria, eu estarei por ai no asfalto, percorrendo as ruas da minha cidade ou do local onde eu estiver, com chuva, sol, frio ou vento, eu farei de cada passo o ritmo do meu coração.

 

 

 Em relação à organização da prova estava tudo maravilhoso, exceto no final, a fila para a hidratação estava enorme e faltando isotônico. 

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19 comentários em “Relato da atleta Angela Rosso de Cascavel.

  1. Emocionei-me ao ler suas palavras, Angela, não imaginamos o esforço que outras pessoas fazem para conseguir realizar seus sonhos. Você correu atrás do seu. Fico muito feliz em saber que ajudei de alguma forma. Continue assim! Todos somos capazes, basta acreditar e ter força.

  2. Amei, amor ler historias de vida e mudança que encontram no esporte. Praticar atividade fisica é tudo de bom… Boa noite, parabéns guerreira!

    • Se as pessoas soubessem como o esporte pode mudar tudo na vida da gente, o ato de superar-se é capaz de produzir milagres Laura, obrigada por ler meu depoimento e comentar, ele foi escrito com o coração.

    • Vamos lá Valmir, força sempre, em Outubro tem a meia maratona de Toledo, ela não é nada fácil pelo que dizem, mas dá tempo de se preparar, ano que vem espero correr ao seu lado na MMC, que tal??? Abraços!!

    • Vc também é um guerreiro, parabéns por persistir. E vença essa depressão logo, certamente vamos nos reencontrar nas pistas. Abraço amigo atleta!!

  3. …Parabéns garota….é isso aí….a vida é feita de sonhos,e a cada dia temos anjos que nos guiam para lugares, que possam realmente dar sentido para nossas vidas…eu amo correr..e isso realmente faz a diferença, em todos os momentos da minha vida…..e se estivermos receptivos a essas oportunidades,uma corrida por ex
    . parece uma coisa tão pequena não? más pode mudar todo um contexto,,..parabéns grande guerreira

    • Ana, só quem corre entende… para alguns parece loucura, parece sacrifício, não para nós. Costumo dizer que o sacrifício do corpo é o alívio da alma. 🙂 Obrigada por ler o texto. 🙂

  4. Parabéns, a distância entre o sonho e a realidade, resume-se a duas coisas: atitude e estratégia. Com planejamento e ação somos capaz de coisas impossíveis.

  5. Me emocionei ao ler sua redação, lindas palavras só quem corre 21km sabe que não e fácil não tem que treina muito e concentrar no objetivo. Parabéns

    • Não foi fácil Tania, mas foi recompensador. Ainda estou feliz por ter conseguido, não importa o que aconteça de agora em diante, essa meia vai sempre ficar marcada na minha história.

  6. Queridos, vcs não imaginam como me fez bem ler os comentários de vcs!!! Obrigado por lerem o meu longo texto, ele foi escrito com o coração e não faria sentido para mim escrevê-lo de forma diferente. Esperei passar uns dias da MMC pra ver se mudavam os sentimentos, só que não. Eles permanecem vivos como na hora que cruzei a linha de chegada. Obrigada por cada palavra de vcs, certamente nos encontraremos nas pistas ou nas ruas. 🙂

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